
As crianças, os brinquedos e as brincadeiras formam um trinômio praticamente indissociável. Eu diria que é quase impossível pensar em uma criança e não se lembrar de seu brinquedo ou brincadeira preferido, ou ainda pensarmos em nossa própria infância sem que nos venha à mente momentos de intensa alegria e realização proporcionados pela interação com os amigos em um jogo de bola no caso dos meninos ou brincando de boneca no caso das meninas. As brincadeiras tradicionais são vistas pela sociologia como um fenômeno da organização social das crianças e da cultura infantil, tratando-se de um fenômeno espontâneo sem a intervenção de um adulto e basicamente sem o uso da escrita. Muitas brincadeiras são transmitidas localmente de criança para criança e assim passam a fazer parte do folclore característico de uma determinada região, outras ganham dimensões internacionais. Ao passo que as brincadeiras são incorporadas ao universo infantil e principalmente quando são formatadas de forma a terem começo meio e fim, elas passam a ser caracterizadas como jogo. A transmissão dos jogos tradicionais de criança para criança também se deu através dos tempos, há relatos de que o jogo Cabra Cega já era realizado pelas crianças romanas no século III a.C. Apesar da característica informal dos jogos e brincadeiras, eles possuem em sua estrutura a atribuição de um papel a ser desempenhado por cada um dos participantes, regras flexíveis, porém passiveis de punição quando são desrespeitadas, e são um poderoso instrumento de relacionamento inter-pessoal. Os brinquedos, por sua vez, podem ou não ser parte integrante dos jogos e brincadeiras, todavia a criatividade sempre foi o fator comum no desenvolvimento tanto de um quanto do outro. Quanto aos brinquedos tradicionais, o uso de materiais facilmente encontrados em casa ou na rua são utilizados para confeccioná-los, tais como: papel para se fazer as pipas ou papagaios, madeira para se fazer carrinhos ou estilingue, latas e barbante para o telefone, pano para a famosa bola de meia, etc. A partir do fim da segunda guerra mundial, entretanto, uma quantidade cada vez maior de brinquedos de plástico passaram a ser fabricados, eles são considerados desde então como os brinquedos ideais, pois provocam pouca sujeira e quando se quebram podem ser facilmente substituídos, além disto, acredita-se que com a industrialização dos brinquedos as crianças passaram a ter mais opções de brincadeiras o que é questionável, pois tais brinquedos oferecem menor estimulo à criatividade e ao uso da imaginação das crianças. Uma criança quando engajada em algum jogo ou brincadeira inevitavelmente irá explorar as dimensões do espaço onde a atividade está se desenvolvendo, assim como exercitar as habilidades requeridas para sua execução e aprender a interagir com os outros participantes. Se o fator competição estiver envolvido, esta será uma grande oportunidade de vivenciar as emoções trazidas à tona em decorrência de tal situação e também de aprender a como lidar com elas. Do ponto de vista maturacional, as características intrínsecas dos jogos e brincadeiras irão interagir com os fatores genéticos e ambientais para promover o desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social das crianças. Todo esforço no sentido de promover oportunidades de interação entre crianças através de jogos e brincadeiras tem grande importância em seu processo de desenvolvimento. O desafio dos adultos, nos dias de hoje, consiste em saber se posicionar tanto como agente facilitador criando as condições necessárias para que as crianças vivenciem as experiências dos jogos e das brincadeiras, porém, não atuando diretamente como um dos membros do grupo nas atividades, quanto como agente atuante que ocorre no momento em que um adulto se reencontra com a criança que ainda existe em seu interior e passa a fazer parte do grupo tomando seu lugar nos jogos ou brincadeiras. O mundo de hoje é bem diferente daquele da primeira metade do século passado quando a relação e o comportamento das crianças durante as horas de lazer começaram a despertar o interesse de estudiosos. Hoje, no papel de facilitador, principalmente nas grandes cidades, um adulto deve se preocupar em localizar um espaço físico adequado onde a criança vai brincar; incentivar a reunião de um grupo de crianças e até mesmo se preocupar com a segurança da brincadeira em si, por exemplo: soltar pipas, que é uma das brincadeiras mais tradicionais dos meninos, já não é tão seguro de ser realizada nas áreas urbanas quanto era a vinte ou trinta anos atrás. É no papel de agente atuante, porém, que um adulto encontra os maiores desafios. Isto acontece porque além de haver a necessidade de interagir com a criança em condições de igualdade comportamental, ou seja, se deixando passar por criança, o adulto precisa também lutar contra sua falta de tempo, seu cansaço, contra o stress do dia a dia e principalmente contra a atração provocada pelos eletrônicos. É mais fácil deixar a criança junto ao vídeo game, ao computador ou ao televisor, assim como pode parecer ser mais prazeroso para a criança permanecer nestas atividades. A verdade é que não podemos sentir falta daquilo que não conhecemos. Se uma criança não tem a oportunidade de brincar em grupo com outras crianças ou com os adultos mais próximos como os pais, tios e avós, e ao contrário disto ela só conhece a distração através dos aparelhos eletrônicos, então ela não saberá diferenciar qual o modelo mais prazeroso de diversão. Os jogos e brincadeiras tradicionais estão sendo transmitidos de gerações para gerações já há séculos e são de fundamental importância no desenvolvimento global das crianças, os jogos eletrônicos por sua vez somente passaram a fazer parte da vida das gerações mais modernas e isto não tem como voltar atrás, estes jogos também tem sua importância; estimulando a velocidade de raciocínio, por exemplo, mas deixam a desejar nas questões de socialização. Bem, o que podemos fazer, então? Provavelmente o melhor a fazer é juntar os dois modelos, o tradicional e o moderno, mais uma vez é com bom senso que vamos conseguir o melhor para nossas crianças. Referências: Pontes, F. A. R; Magalhães, C. M. C. A transmissão da cultura da brincadeira: algumas possibilidades de investigação. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2003, 16 (1), p. 117 – 124. Alves, P. B; et. al. Atividades cotidianas de crianças em situação de rua. Psic. Teor. e Pesq. Brasília. 2002, v. 18, n. 3, p. 305 – 313. |